Nós, a água

Rio Citarum (Indonésia)

Acontece com o costume. O atraente objeto de nosso fascínio empalidece. A beleza natural mais vibrante parece tornar-se invisível ao olhar rotineiro. Acontece com quem dizemos amar; acontece com picos e montanhas; acontece com o que nos alimenta.

A água, por exemplo. Há muito, temos uma relação íntima com a água.  Nosso corpo, cerca de 60% do peso dele, deve-se a água presente nele. Quando começamos a migrar da África, tomamos o cuidado de nos estabelecer rentes às bacias hidrográficas. Nossas cidades e nossas civilizações floresceram aliando-se à água, beneficiando-se de seus favores e domando algumas de suas potencialidades.

À força, às formas e poderes da água, chamamos Posseidon, Oceano, Nereu, Rán, Nerthus, Ganga, Varuna, Enki, Boann, Nabia, Sedna, Susanoo, Tangaroa, Yemanjá, Oxum, Nanã… Filhos da água, e carentes dela, sorvedores de seus frutos e temerosos de seus humores, erguemos altares em homenagem ao elemento aquático.

Com a ajuda da água, dominamos a água. Encanamos a água e nos tornamos senhores do vapor. Nossas economias, fascinadas por inventos e avanços, lentamente esqueceram-se da fonte de seus produtos e serviços. Então, houve o dia em que jogamos nos corpos d’agua não flores em oferenda, não espelhos para as deusas vaidosas, não barcos venturosos. Houve o dia em que às águas enviamos nossas fezes, nossos restos, nossos lixos e detritos, nossos tóxicos e falsidades, nossa doença e nossa morte. À mãe da vida ofertamos a degradação.

Nossas cidades ainda dependem da água. Nossas indústrias ainda precisam da água. A carne que comemos é dependente da água. Os pescados, os plásticos, os aparelhos de televisão e a internet – todos dependentes da água. Lendo este texto, um ser dependente de água. Portanto, ao observar a água caíndo do chuveiro ou da torneira, podemos notar que o que está ali não é apenas “água”, mas um rico processo do qual fazemos parte e profundamente dependemos.

Despertar para a água é ver a realidade da água em nossas vidas e se dar conta de que nossas vidas neste planeta não existem sem a água. Somos a água. A água não é uma terceira coisa, ali ao lado, na forma de um rio com um nome. Despertar para a água é integrar à percepção a noção de que o rio das fotos abaixo está em nosso corpo, participando de quem nós somos. Quando olhamos para os rios Citarum, Tietê ou Potengi, vemos a nós mesmos. Despertar para a água é acordar para o fato de que a degradação dos corpos d’água representa nossa própria degradação.

Nós no rio Citarum (Indonésia)

Somos nós, eles no rio Citarum (Indonésia)

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